Os gostos e os começos

Imagem Sabe aquelas coisas que você come e se sente transportado para uma outra dimensão? Seja uma dimensão da lembrança, seja para uma dimensão do prazer, seja para a dimensão do que quer que seja. Comer tem o seu quê de gosto, seu quê de prazer, seu quê de descoberta. Descoberta essa que vem pelo sabor, pelo cheiro, pelas texturas, pela interação com as panelas. Eu sempre fui gulosa. Tento lembrar de um dia de fastio e não consigo.

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E a comida me traz boas recordações da minha infância, das brincadeiras na cozinha, das conversas das tias enquanto tapiocas quentinhas e fininhas iam saindo da frigideira dirigida por minha mãe e eu passava manteiga com uma colherinha, espalhando bem em toda a superfície para não deixar nenhuma beirinha sem. Tem ainda as tardes com minha bisavó e os sanduichinhos de queijo, o molhinho de catchup e maionese. Foi nessa época que eu aprendi a comer de garfo e faca, sentar à mesa para desfrutar de uma refeição com toda a pompa cabível a uma criancinha de quatro anos. Os talheres eram pequenos, com cabinhos plásticos de cor laranja. Mesmo sem usar naquele momento, eu insistia em que a colher sempre fosse colocada na mesa junto com o meu lanchinho, como se os talheres fossem sentir falta dela.

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Daí a gente cresce e vai começando a querer sair do papel de ajudante, ir se arriscando com as panelas. E se eu colocar só mais um pouquinho de alecrim? Canela na carne? Hummm, não é que funcionou? E cozinha deixa de ser sinônimo só de preparar comida e vira gosto. Como diz Elis, uma amiga minha, você passa a se emocionar com os ingredientes, os sabores, os cheiros, você vai buscando aqueles pequenos prazeres que trazem tanto alento e satisfação. Muitas vezes essas satisfações vem silenciosas, outras vezes acompanhada de leves onomatopeias de delírio que atendem por variações entre “hummm”, “nóóóó”, “hammm”, “nhommm”.

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Tem já um tempo em que cozinhar tem ainda outras funções que não apenas a de comer, de se emocionar. Comecei a cozinhar para pensar, as panelas viraram boas amigas nas horas em que a tese resolve empacar (estudantes de pós-graduação, uni-vos nesses momentos de hiato criativo) e meu forno se tornou um belo aliado para uma canalização das energias criativas.

A mudanças de alimentação que fiz desde 2012, incluindo opções mais saudáveis e conscientes, também tiveram uma grande parcela de participação na aproximação com a cozinha e os gostos foram se tornando ainda mais perceptíveis. Busca uma receita daqui, inventa um prato dali, usa os amigos e vizinhos de cobaias de lá…

Uma coisa foi puxando outra e, como cozinha tende sempre a ser a parte mais aconchegante e conversável da casa, começo o Pra Lamber os Dedos. Essa é uma dessas misturinhas em que a gente vai colocando o que tem na despensa, vai sentindo o sabor e deixando ver até que ponto vai dar, se a experiência vai prestar, se a receita vai render, se o bolo cresce, se fica gostoso e descobrindo com o tempo as variações de sabor, reunir os amigos para provar e ir deixando a receita a cada dia com mais sabor.

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